Tuesday, November 03, 2009

Bandeirantes Marriott

Minha sobrinha está indo, no próximo ano, para o terceiro colegial (mais um sinal de que estou ficando velho, até porque no meu tempo se chamava terceiro “científico”).

Alem da mensalidade de valor astronômico, um outro fato me chamou a atenção: O período é integral. Carol entra na escola às 8h e só sai às 18h, durante este Período, alem de aulas também participa de atividades extra curriculares, como esportes, artes, etc.

Na visão de um economista está claro o que a escola está fazendo, ela está se apropriando de uma parcela maior do “share of wallet” dos pais do aluno, que, em vez de dividir seus gastos entre a escola, o curso de inglês e a academia, acaba concentrando tudo em apenas uma fatura, e como vantagem adicional não tem que se preocupar com a sempre complicada logística de um filho adolescente.

Em um tempo de pais cada vez mais ocupados e de “riscos” cada vez maiores impostos a seus filhos (violência, conteúdo impróprio na internet, drogas, etc.), nada mais cômodo que “terceirizar” seu pupilo durante o horário de expediente a uma instituição de confiança, mesmo que o preço de tal conforto seja um tanto salgado.

O próximo passo na busca pela maximização do share of wallet dos pais do aluno será, sem dúvida, o internato. O colégio interno já teve seus dias de glória, na época dos meus pais muitos dos filhos de endinheirados do interior iam estudar em Recife, onde eram internados nestas instituições. Algumas crianças e adolescentes da capital acabavam tendo o mesmo fim, normalmente como castigo, fruto de mau comportamento ou notas baixas. Todo o conceito do internato estava alicerçado na disciplina, comandado por padres ou freiras o colégio mantinha os alunos na rédea curta e, por isso mesmo, não é recordado pelos ex-internos como um lugar do qual sintam saudades. Com o tempo a população se concentrou nas cidades, os pais começaram a se sentir um tanto ou quanto culpados de largar seus filhos em internatos e o modelo caiu em desuso.

Desta forma a volta do internato nos moldes tradicionais já não cabe na sociedade em que vivemos, para convencer pais e alunos a escolher esta opção faz-se necessário um conceito repaginado, o ”resort educacional”.

Ao contrario do que acontecia na década de 50 os pais não possuem mais autoridade completa sobre os destinos e escolhas dos seus filhos, além de terem criado, ao longo dos anos uma crescente complacência em relação aos rebentos, talvez fruto da culpa que sentem por se considerarem ausentes para com a família. A internação forçada não seria mais aceita pela sociedade do novo milênio, e os pais provavelmente se tornariam párias em seu círculo social. O “resort educacional” precisa não só conquistar os pais, mas também atrair o filho.

Para garantir um programa acadêmico consistente, que transmita aos pais a sensação de que seus filhos estão aprendendo e se desenvolvendo, é necessário o envolvimento no projeto de uma instituição de ensino conceituada e de qualidade inquestionável. Para garantir uma atmosfera encantadora ao aluno, que faça com que o mesmo se sinta como se estivesse em uma eterna colônia de férias, sentindo o mínimo de saudades do mundo exterior, é necessário o envolvimento no projeto de uma cadeia hoteleira de alto nível. Nasce o Bandeirantes Marriott, o primeiro resort educacional do país:

“Localizado em Atibaia, o Bandeirantes Marriott traz comodidade aos pais bem sucedidos e atarefados do nosso tempo, mas que não abrem mão de uma boa educação para seus filhos. Ao invés de conviver com babás e motoristas, os alunos do BM têm à sua disposição professores, monitores e educadores com a mais alta qualificação nas mais diversos áreas de conhecimento, que incentivam os mesmos a explorar constantemente seu pensamento critico e raciocínio analítico.

No BM o aluno conta com acompanhamento 24 horas, pensão completa e monitoramento constante via internet para que os pais possam acompanhar cada passo dos seus filhos. O resort oferece, alem de um sólido programa acadêmico, uma gama interminável de atividades extra curriculares, que vão desde golfe até aulas de culinária com chefs consagrados. No Bandeirantes Marriott a otimização logística chega à perfeição, garantindo que o aluno não precise sair para nada, já que pode contar, entre outras coisas, com atendimento medico, dentário e psicológico.

Criando uma atmosfera de perfeita integração com a paisagem bucólica, as charmosas e alegres acomodações do Bandeirantes Marriott oferecem muito conforto e comodidade aos alunos. São 363 unidades, entre apartamentos, suítes e bangalôs. Nas salas de aula, decoradas por Sig Bergamim, tudo foi pensado para proporcionar o ambiente perfeito para o aprendizado.

O resort oferece completa flexibilidade, permitindo que os pais ”solicitem“ seus filhos quando quiserem, seja para dormir em casa, passar o final de semana ou simplesmente encontrá-los para o jantar. O serviço de “transfer” do Bandeirantes Marriott entrega e recolhe o aluno onde os pais estiverem. Garantindo que pais e filhos convivam sempre que quiserem e não convivam sempre que não quiserem, promovendo um relacionamento saudável e feliz.

Bandeirantes Marriott resort educacional, seu filho em boas mãos.”

Sunday, October 25, 2009

Energia - Ensaio 1, Parte 1

Há cerca de 300 anos, Thomas Newcomen inventou a máquina a vapor, tornando possível revolução industrial. Antes disso já se usava a madeira e o carvão para aquecimento, mas a energia mecânica, necessária para mover objetos e automatizar processos industriais, dependia da força física dos seres humanos e dos animais, o que limitava profundamente a capacidade do ser humano de gerar riqueza e de produzir bens e serviços muito além daqueles necessários para a sua própria subsistência.

O carvão era abundante, barato e possuía alta densidade energética. As máquinas a vapor multiplicaram a capacidade produtiva e a desvincularam da força humana e animal, que dependiam do gasto de calorias, que por sua vez dependiam da ingestão das mesmas, presentes nos alimentos.

As locomotivas e os navios a vapor possibilitavam vencer grandes distancias em tempos relativamente curtos, impulsionando a integração e o comércio entre as cidades. Apesar de protestos dos trabalhadores no início da revolução industrial, que quebravam as mesmas máquinas que lhes tirava os empregos, em pouco tempo ficou claro que a industrialização traria para a humanidade um nível de conforto e desenvolvimento inimaginável até então.

Com a conseqüente automação da agricultura, a invenção do motor de combustão interna (impulsionado pela descoberta do petróleo), e a descoberta da eletricidade, uma grande parte da humanidade se desvinculou do trabalho braçal. Sem precisar dedicar tanto esforço para a própria subsistência subimos um degrau na pirâmide de Maslow, e com nossas necessidades fisiológicas satisfeitas começamos a busca para satisfazer novas necessidades, que nem sabíamos que tínhamos.

Como conseqüência disso tudo a humanidade avançou nos últimos 300 anos (um período relativamente curto se considerarmos a existência humana na terra) a um ritmo incomparável. Quanto mais nos libertávamos do trabalho braçal mas nos dedicávamos ao trabalho intelectual. O conhecimento, vital neste tipo de trabalho,deixou de ser restrito às elites e passou a ser disseminado a uma parcela crescente da população. Com mais gente pensando, mais conhecimento foi sendo criado e disseminado, impulsionando novos avanços tecnológicos, em um círculo virtuoso que perdura até os nossos dias.

Apesar de termos estudado a revolução industrial nos tempos de colégio e de usufruirmos de um estilo de vida impensável não fosse pelos avanços tecnológicos iniciados desde então, paramos pouco para pensar, em nosso dia a dia, no fator essencial que torna tudo isso possível: a energia.

Exceto quando pagamos a conta de luz ou abastecemos nossos carros pouco nos damos conta de que a energia está presente em praticamente todos os aspectos das nossas vidas. Do gás necessário para cozinhar nossas refeições, ao óleo usado no navio que trouxe da China o último “gadget”que adquirimos e que não conseguimos mais viver sem, tudo requer energia, se não vejamos:

Acordo de manhã com o toque do meu celular, cuja bateria foi carregada com energia elétrica. O aparelho é composto de uma série de peças industrializadas, que requereram alguma energia para serem produzidas, foi montado na China, e transportado ao Brasil utilizando ainda mais energia. Me levanto e vou ao banheiro tomar um banho quente (aquecimento a gás, mais energia), escovo os dentes (pasta e escova são produtos industrializados, mais energia), lavo o rosto (a bomba d’água que torna possível ter água corrente no terceiro andar requer, adivinha?, mais energia). Me visto (a produção das roupas, a lavagem das mesmas, o ferro de passar, energia, energia, energia). E olhe que eu nem saí de casa ainda!!!

Não é difícil perceber que usamos uma grande quantidade de energia diariamente, e que a tendência é que usemos cada vez mais, à medida em que novos “gadgets”, equipamentos, eletrodomésticos e produtos industrializados são consumidos por nós a um ritmo incomparável àquele do tempo dos nossos pais.

Até pouco tempo atrás, digamos, até os anos 60, vivíamos em um mundo onde aparentemente a oferta de energia era ilimitada. Energia abundante e de baixo custo tornava possível sustentar o forte crescimento da demanda. Esta promessa de oferta ilimitada começou a ser desmentida na década de 70 com a primeira crise do petróleo.Os principais países exportadores de petróleo (concentrados em sua maioria no oriente médio e organizados em cartel através da OPEP), “fecharam a torneira” e reduziram drasticamente a oferta de petróleo, jogando o preço da commodity nas alturas e acordando o mundo para o fato de que dependíamos, mais do que imaginávamos, de um combustível Fóssil não renovável e que cuja oferta estava nas mãos de um punhado de países não muito simpáticos ao mundo ocidental.

O recente rally que vimos no preço do petróleo, que chegou a US$ 150 o barril em 2008, é ainda mais alarmante. O aumento nos preços não foi causado por um choque abrupto na oferta, como nos anos 70, mas pelo forte aumento na demanda, com países emergentes sedentos por petróleo para sustentar seu rápido crescimento, enquanto que os países desenvolvidos (notadamente os EUA), pouco faziam para reduzir sua dependência através de medidas de eficiência energética.

O que está acontecendo com o petróleo tende a se repetir com os demais combustíveis fosseis (que juntos respondem por 80% do consumo de energia no mundo). À medida em que as reservas “fáceis” secam, é necessário ir mais longe, mais fundo, e extrair produtos de qualidade inferior (que conseqüentemente exigem mais pré-tratamento).Em outras palavras: muito antes do petróleo, do carvão e do gás natural “se acabarem” eles vão ficar mais caros, muito mais caros.

Alem de provocar um amento de preço, a crescente demanda por estes produtos, e sua queima para gerar energia, que vem acontecendo, como já vimos, há 300 anos, vem deixando marcas permanentes na atmosfera da terra. Suas conseqüências ainda estão longe de serem completamente estimadas.

... to be continued

Saturday, October 24, 2009

Economia Global e Geopolítica - 1º Ensaio

O mundo vive um processo sem precedentes de democratização da riqueza entre os países. Parece uma contradição que o capitalismo, ao invés do socialismo, venha a diminuir, e não a aumentar, disparidades econômicas. A concentração de renda dentro das fronteiras de cada país talvez continue a aumentar, impulsionada pelo acúmulo de riqueza da minoria mais rica, e não pelo empobrecimento da maioria mais pobre (a pobreza extrema está com os dias contados, pois a economia de mercado não pode mais se dar ao luxo de excluir bilhões de “potenciais consumidores”). A diferença de riqueza entre os países, no entanto, já vem diminuindo e diminuirá cada vez mais, não pelo colapso das economias desenvolvidas, mas pela ascensão dos emergentes. Nunca tantos países apresentaram, ao mesmo tempo, taxas de crescimento tão altas como as observadas nos últimos vinte anos.

Até a década de 80, a maioria dos países do terceiro mundo possuía um sistema político e econômico híbrido entre o capitalismo e o socialismo. Existia nestes países um capitalismo incipiente, onde o setor privado era pouco desenvolvido, seus mercados eram estritamente fechados e seus governos receosos em adotar políticas de abertura comercial. Este sistema híbrido se mostrou ineficiente, provocando nestes países crescimento pífio e hiperinflação. A queda do muro de Berlim e o sucesso dos tigres asiáticos (países que adotaram políticas mais liberais de economia de mercado) deixaram claro o caminho a ser seguido: a liberalização dos mercados. Com políticas de responsabilidade fiscal e uma maior abertura econômica uma boa parte dos países que costumávamos chamar de subdesenvolvidos passaram à condição de “emergentes”, erradicaram a hiperinflação (hoje apenas 12 países no mundo apresentam taxa de inflação superior a 15% anuais) e começaram a receber consideráveis investimentos externos (fruto da redução significativa do risco associado a estes países).

Pegando o Brasil como exemplo, vivemos hoje em um país que poucos poderiam imaginar em 1980. Nossa taxa anual de inflação está controlada por volta de 5% ao ano (na década de 80 chegamos a incríveis 1.200% anuais), temos uma perspectiva de crescimento sustentado do PIB na casa dos 4% ao ano (ritmo que deve ser retomado já em 2010, apesar da crise) e o risco Brasil (índice que mede a confiança do investidor em nosso país), está em 250 pontos, tendo chegado a 150 pouco antes da crise (ou seja, por meros 1,5% a mais o investidor estaria disposto a “se arriscar” comprando títulos da dívida brasileira ao invés da americana, situação impensável 20 anos atrás).

O mais importante é que o que está acontecendo no Brasil não é exceção, é regra. Em 2006 e 2007 124 países cresceram a uma taxa de 4% ou mais, nenhum deles do chamado mundo desenvolvido. Antoine van Agtmael, fundador do conceito de “mercados emergentes”, identificou 25 empresas como as principais empresas multinacionais da nova geração, todas de países emergentes, quatro delas brasileiras. Como conseqüência disso os países em desenvolvimento capturarão a maior parte do crescimento mundial nos próximos anos. Crescendo mais rápido nos aproximaremos, e eventualmente ultrapassaremos, os países que hoje chamamos de desenvolvidos, e que no futuro poderemos tratar como iguais. Em 2040, um grupo de 5 países emergentes (China, índia, Brasil, Rússia e México) terá um PIB conjunto maior do que o do G-7, atual grupo de países desenvolvidos que dominou a esfera econômica no século XX. E em 2050, o Brasil não será apenas o país do futebol e do carnaval, será também a quarta economia do mundo, atrás apenas de China, EUA, e Índia.

Mas ser um país “desenvolvido”, e apresentar uma condição de vida confortável para o seu povo, tem menos a ver com PIB total e mais a ver com PIB per capita. Como o PIB dos países emergentes cresce em um ritmo bem mais acelerado que a população, o PIB per capita também tende a crescer, e a disparidade entre os países tende a diminuir. Países emergentes como Brasil, México, China e Rússia apresentarão em 2050 rendas per capita muito próximas aos dos países europeus. Eu, que nasci em um país pobre, morrerei em um país rico.

Não precisaremos esperar até 2050 para sentir os efeitos destas mudanças, eles já estão se apresentando hoje (com a crescente influência geopolítica da China) e se multiplicarão no futuro. O principal efeito é a perda da posição dos EUA como única potência mundial (posição que vem mantendo desde o desmantelamento da URSS). Apesar de continuar crescendo, os Estados Unidos representarão um percentual cada vez menor da economia mundial, e por conta disso terão uma importância decrescente (porém ainda muito forte) na definição dos rumos da política global. Por um lado isso poderia representar um risco à segurança global, com a ascensão de novas potências capazes de rivalizar o poderio militar americano e trazendo novamente à cena um possível cenário de conflito armado de grande porte, possibilidade que havia sido afastada desde o fim da guerra fria.

O que a guerra fria nos mostrou, no entanto é que, à medida que um país assume uma posição de liderança no contexto global, assume também uma maior responsabilidade neste contexto. No mundo em que vivemos hoje e que viveremos no futuro, com uma economia cada vez mais global e interdependente, um país que almeje destacar-se no contexto econômico mundial simplesmente não poderá se dar ao luxo de colocar em risco sua posição se envolvendo em conflitos armados, principalmente em conflitos de grandes proporções, sob pena de isolamento econômico, o que no século XXI significa assinar a própria sentença de morte. Sempre existirão os fundamentalistas a lá Chavez ou Ahmadinejahd, mas na falta de uma opção viável ao capitalismo de mercado (que, na minha opinião, só se fortaleceu com a crise, uma vez que o crescimento mundial se recuperará em no máximo dois anos daquela que foi anunciada como “a maior crise financeira em 80 anos”) estes ditadores só sobreviverão em países economicamente irrelevantes, tornando o risco de um conflito armado de grande porte próximo a zero.

Por fim, entendo que não só o poder e influência das nações desenvolvidas tende a diminuir, como também o poder e a influência das nações, de um modo geral. Fronteiras significarão cada vez menos em um mundo dominado por multinacionais que enxergam o mundo como um só mercado, e que possuem interesses estratégicos que transcendem interesses nacionais. As fronteiras ainda existirão por algum tempo, mas serão cada vez mais irrelevantes

Saturday, September 12, 2009

O que importa pra você?

Os candidatos ao MBA de Stanford, um dos mais reconhecidos do mundo, passam por um processo não muito diferente daqueles que escolheram aplicar para escolas de igual prestígio, como Kellogg, Wharton ou Harvard.  Além de um bom currículo, tanto acadêmico quanto profissional, boas cartas de recomendação e uma pontuação alta no GMAT, os aspirantes a qualquer um destes programas precisa "se vender" escrevendo um punhado de pequenas dissertações (os "essays"), que tanto podem tratar de experiências passadas quanto de aspirações futuras.


O que me surpreendeu no caso de Stanford foi a pergunta que serve de tema para a primeira dissertação.  Fugindo do óbvio ululante de perguntas do tipo:  "De que forma o você acha que o MBA contribuirá no seu desenvolvimento pessoal e profissional?" ou "Como você se vê daqui a cinco anos?" a primeira questão a ser respondida é bem mais original, e por isso mesmo, bem mais estimulante:  O que mais importa pra você? E porquê?

É uma pena que para responder esta pergunta seja necessário escrever uma dissertação com 400 palavras, achei uma resposta melhor com 30.

"O que mais importa pra mim é ser feliz, porquê se não se é feliz não será um MBA de Stanford que me fará nem um pouquinho menos infeliz."

Friday, July 24, 2009

Macrotendências 2:


Continua valendo o “disclaimer” do post anterior. Como diria Lulu Santos são idéias que existem na cabeça e não têm a menor obrigação de acontecer.

Demografia e Família:

Uma das tendências que mais têm se fortalecido nos últimos anos é a queda na taxa global de fecundidade. Hoje um terço dos países do mundo já apresentam taxas abaixo de dois filhos por mulher (o mínimo necessário para garantir a reposição da população no longo prazo). Alguns fatores por trás da diminuição na taxa de fecundidade são o aumento no nível de instrução, a popularização dos métodos anticontraceptivos e a crescente urbanização da população. A taxa média global de fecundidade, hoje em 2,6 filhos por mulher, deve continuar caindo até ficar abaixo da taxa de reposição, como efeito disto, eventualmente a população mundial parará de crescer. A previsão da ONU é que a população mundial atinja um nível máximo de 9,5 bilhões de habitantes, por volta de 2070, e a partir daí, comece a diminuir. No Brasil a população pode começar a diminuir em apenas 30 anos.

Os efeitos deste fenômeno são muitos: Por um lado seremos mais ricos, as taxas de crescimento do PIB dos países superarão consideravelmente as taxas de crescimento populacional, ocasionando um aumento considerável na renda per capita a nível global. O banco de investimentos Goldman Sachs prevê que o PIB per capita do Brasil em dólares de 2007 (ou seja, já descontando a inflação), passará dos atuais US$ 8 mil para aproximadamente US$ 48 mil em 2050 (acima do atual PIB per capita norte americano). Em outras palavras, seremos um país desenvolvido. Por outro lado seremos mais velhos, os maiores de 60 anos que hoje representam 11% da população mundial passarão a representar 22% em 2050. No Brasil a tendência é ainda mais forte, aqui a participação dos maiores de 60 na população passará de 10% a 30% no mesmo período.

O núcleo familiar clássico de classe média em uma cidade como São Paulo atualmente já é formado por um casal e um filho único. As pessoas simplesmente não têm mais tempo para criar mais filhos, e nem dinheiro. Dinheiro até teríamos para criar quatro filhos do jeito que os filhos eram criados na década de 1960, o problema é que os filhos de hoje em dia estão cada vez mais caros, demandando investimentos pesados em educação, vestuário, lazer e na satisfação de crescentes necessidades de consumo. Escolhemos ter apenas um filho para poder “dar o melhor” pra ele, preferimos colocar nosso filho único na melhor escola do que ter que matricular dois ou três rebentos em uma escola mais barata e, teoricamente, pior.

Já falei aqui neste blog da idéia do filho coletivo, e admito que ainda existem barreiras sociais fortes que impedem a proliferação deste modelo no curto prazo. Mas se temos cada vez menos tempo para os nossos filhos e se custa cada vez mais caro mantê-los e prepará-los para o mundo competitivo que os aguarda, nada mais natural que maximizemos estes dois recursos escassos (tempo e dinheiro) nos associando em grupos ampliados de pessoas em torno de um só filho. Se em 1950 um casal tinha seis filhos, passou a ter dois em 1980 e hoje tem apenas um, é natural esperarmos que o casal do futuro tenha 50% ou 20% de um filho, compartilhando-o com outros.

O núcleo familiar tende a ficar mais flexível. Hoje vemos cada vez mais pessoas morando sozinhas, ou em núcleos familiares reduzidos. A idéia de que um casal deve morar junto já vem sendo questionada, e casais começam a morar separado por opção. Os relacionamentos duram menos tempo e a idéia de juntos para sempre vai se tornando uma utopia. O percentual de homossexuais (que na prática não podem ter filhos biológicos) vem aumentando, assim como o de bissexuais (que por definição não se satisfazem, no longo prazo, com um só parceiro). Junte-se a isso a idéia de que o filho não será de um casal, mas de um grupo, e temos um conceito expandido de família. No final disso tudo as pessoas morarão sós ou em grupos, mas estes grupos terão menos a ver com relações consangüíneas e hereditárias, e mais com relações afetivas e não exclusivas. O lar do futuro pode ser composto de três adultos, um idoso e uma criança, que podem não ter laços de sangue ou relacionamento conjugal, mas que se gostam, se ajudam e vivem em uma certa harmonia formando, portanto, uma família, por que não?

Outra ruptura no conceito tradicional de família deve vir junto com a evolução da engenharia genética. Não imagino que na segunda metade deste século as mulheres ainda carreguem um feto em seu corpo por 9 meses. A opção de uma gravidez completa “in vitro” sofrerá, a princípio, uma forte oposição cultural, principalmente por grupos religiosos, mas eventualmente passará de exceção à regra. Sejamos práticos, pra que passar nove meses carregando um bebê na barriga quando se pode manter o corpo inalterado e ir visitar o feto no laboratório mais próximo sempre que quiser? No laboratório o feto terá perto de 100% de chances de sobrevivência, não estando exposto a acidentes ou doenças. Dependendo da evolução da engenharia genética talvez esperar nove meses não seja mais necessário. Num mundo onde as pessoas se preparam cada vez mais antes de ter um filho, este período obrigatório de preparação biológica deixa de fazer sentido.

Em algum momento surgirá a dúvida: prefiro um filho que se pareça comigo ou com o Brad Pitt? Com um mundo de possibilidades para alterar (e melhorar) geneticamente o DNA do rebento que vem por aí será cada vez mais tentador escolher um filho mais bonito e inteligente que o filho do vizinho, ao invés de um que herde seu pé chato ou seu cabelo ruim. Mais importante do que isso é a questão ética que começa a ficar confusa quando levamos em conta questões de saúde: será que eu quero ter um filho da forma “natural” que herdará minha predisposição genética a diabetes ou a doenças do coração ou prefiro escolher um gene “melhorado”, com chances consideravelmente menores de desenvolver uma destas doenças? Não será uma escolha fácil.

Enfim, mesmo que as pessoas das próximas gerações sejam mais bonitas, mais inteligentes e mais bem preparadas (lembrem-se do conceito do filho coletivo), voltamos ao problema discutido no primeiro parágrafo, elas virão em menor número. O envelhecimento constante da população traz problemas graves. Por mais que uma melhor qualidade de vida proporcione às pessoas uma vida produtiva mais longa, a humanidade sempre precisará de renovação, como iremos reverter a tendência de queda na taxa de fecundidade? Como iremos convencer as pessoas a ter mais filhos? Será que um dia os governos dos países precisarão criar uma safra de crianças (a lá Admirável Mundo Novo) para compensar o declínio natural dos nascimentos? Fica para reflexão...

Tuesday, July 14, 2009

Macrotendências

Eu sempre quis ser um misto de Aldous Huxley com Faith Popcorn. A profissão de "futurólogo" é algo que me atrai. Gosto de imaginar o futuro, e o faço sempre com uma confiança inabalável de que minha versão do futuro tem grandes chances de se concretizar. As "Macrotendências" abaixo descritas não foram o resultado de nenhuma pesquisa séria, não têm data para acontecer e são fruto exclusivo das minhas observações e de minha imaginação fértil

Informação e Transporte:

Exceto no caso de trabalhadores braçais (que serão minoria devido à constante automação dos processos) e de profissões que exigem o contato humano (médicos, dentistas, atletas de esportes coletivos, etc.), o vínculo físico com o local de trabalho deixará de existir. Devido às novas tecnologias de comunicação on-line, conversar com uma pessoa "ao vivo" ou através de algum aparelho (chamem de "tele presença" ou algo do tipo), fará pouca diferença. A cultura de fechar negócios ou fazer reuniões com a presença física das pessoas é coisa da nossa geração, no futuro o local de trabalho será 100% virtual, não só para profissionais liberais, mas também para executivos.

A consequência natural disso é que grande parte da humanidade não precisará mais morar no mesmo lugar em que trabalha. Muitas empresas não estarão localizadas em um determinado "lugar", mas funcionarão on-line, 24 horas por dia, e nossos colegas, na prática, poderão ser de qualquer parte do mundo. Com os diferentes fusos horários envolvidos nessa história toda, é de se esperar que o tradicional "horário de trabalho" perca um pouco o sentido, para sincronizar horários estes funcionários dos quatro cantos do mundo vão se adaptar para se comunicar com pares, clientes, chefes e subordinados, tendo cada um uma agenda um tanto confusa, mas interessante. Interessante porque irão intercalar tempo de trabalho e lazer de uma forma bem mais flexível, não fará muito sentido ir à academia "após o trabalho" se você trabalha em casa, e tem compromissos virtuais nos horários mais malucos com seus colegas que moram na Alemanha, 5 horas na frente.

Com isso acaba-se a famosa "hora do rush" nas cidades, devido ao fim do "horário de trabalho". Isso traz a vantagem óbvia de aliviar o trânsito, mais que nunca viveremos em cidades "que nunca dormem". Junte-se a isso a desvinculação do trabalho com a moradia e o próprio conceito de "cidade" se transforma, será que elas ficarão maiores ou menores, com a saída daqueles que sempre sonharam em morar num lugar mais "tranquilo"?. Caso a tecnologia venha acompanhada de uma ampla abertura de fronteiras (falarei sobre isso nas macrotendências políticas), seria possível morar em Biarritz, ou no Taiti, e mesmo assim continuar trabalhando normalmente.

As pessoas não deixariam de viajar, mas dois dos motivos atuais das viagens deixariam de existir. Pra que viajar "de férias" se eu posso ir para qualquer lugar do mundo e continuar trabalhando normalmente? Pra que viajar "a negócios" se todos os negócios podem ser resolvidos daqui mesmo, da minha casa? As viagens seriam feitas para proporcionar o encontro físico das pessoas, quando elas assim desejassem. Imagino diferentes "tribos" emergindo disso tudo: existiriam os nômades compulsivos que morariam um certo tempo em cada lugar do mundo, mas também existitiam aqueles que usariam as novas tecnologias para ficar cada vez mais dentro do casulo.

Acho que a grande cidade não perderá o seu encanto, mas posso estar enganado. Eu moraria em Paris, pelo menos por um tempo, mas o que seria de Paris se mais da metade das pessoas que morassem por lá tivessem como atividade algo que tem pouco ou nada a ver com a cidade ou o país em que se encontram?

to be continued...

Tuesday, June 30, 2009

Um tempo parando pra ver o tempo passando

Nasci a trinta anos, engraçado como a gente olha com naturalidade isso tudo a nossa volta. É como se nada tivesse mudado, quando na verdade quase tudo mudou.

Quando nasci, no final da década de setenta, o mundo já estava preocupado com o Oriente Médio. A revolução islâmica do Irã iria desencadear uma das fases mais agudas da crise do petróleo. Hoje este mesmo Irã se revolta contra o regime islâmico e a preocupação sobre o futuro de uma economia a base de petróleo volta à tona com a conscientização sobre o aquecimento global.

Por mais que algumas situações repitam scripts quase idênticos aos de 30 anos atrás, a grande verdade é que pouca coisa lembra aquele mundo em que nasci. Vivemos hoje num mundo melhor, diria eu, pois sou daqueles talvez bobos que se encantam com o progresso, com a capacidade do ser humano de criar coisas inusitadas para satisfazer aquelas necessidades que nem sabíamos que tínhamos.

Criação de necessidades que nos deixa cada vez mais frustrados e ansiosos por não conseguir satisfazê-las todas, diriam alguns amigos meus, meio intelectuais, meio de esquerda. Mas se pararmos um pouco de prestar atenção no que não podemos ter e nos concentrarmos naquilo que temos, perceberemos o mundo de possibilidades que temos hoje, e que não tinham os nossos pais há 30 anos.

Tenho amigos no mundo inteiro e me comunico com eles como se estivessem aqui do lado, a qualquer hora, por texto, voz ou imagem. Compro o livro que quiser sem sair de casa escolhendo de um estoque infinito. Tenho acesso a toda e qualquer informação, cultura e conhecimento sem limites, de uma forma democrática como nunca se viu.
Só posso ser otimista a respeito de uma sociedade que consome informação de múltiplas fontes, sem restrições. Não há dúvida que a sociedade em que vivemos hoje, apesar de mais individualista e mais ansiosa, é menos propensa à manipulação, mais diversa e menos preconceituosa do que há 30 anos.

Trabalho em uma indústria de papel e celulose e tenho como principal tarefa desenvolver projetos para um futuro onde usaremos o papel, a celulose e a árvore de uma forma bem diferente da que usamos hoje, provavelmente de uma forma mais inteligente. Viveremos num país diferente do que vivemos hoje, e que muito pouco lembrará aquele em que nasci há 30 anos.

Quando criança assistia na sessão da tarde enlatados americanos onde as forças do bem combatiam comunistas malvados e comedores de criancinhas. Hoje a Russia, aquela que há apenas 20 anos era uma das duas superpotências mundiais, está ao lado do Brasil na sigla BRIC. Segundo Obama nosso presidente é "o cara". O etanol, aquele mesmo do próalcool, é benchmark mundial. A India tem multinacionais que compram todo mundo e a China, bem, a China ganhou mais medalhas de ouro que os Estados Unidos nas últimas olimpíadas! Estou ficando velho, onde estão as medalhas da Alemanha Oriental?

Na Paulista a passeata gay tem 3 milhões de pessoas, mais gente que no Anhangabaú das diretas já. Minha sobrinha está preocupada com as sacolas plásticas que minha irmã pega no supermercado, o Brasil está emprestando dinheiro pro FMI, a GM pediu falência, a FIAT pode comprar uma parte dela. Quem olhava pro 147 naquele longínquo ano de 1978 mal podia imaginar. O presidente americano é negro, a Europa é um país só, incluindo aqueles caras da "cortina de ferro". O Real se valoriza a cada dia, neste trimestre podemos ter deflação.

Enfim: mais do mesmo.