Friday, January 18, 2013

Guia para o Paulistano no Carnaval de Olinda



by Pedro Tolentino


Eu acho é pouco, é bom demais...
Bom, não tem como negar, Recife está na moda.

Morei por 9 anos em São Paulo, e nos últimos anos comecei a ouvir cada vez mais frases do tipo:  "nossa meu, que legal, Recife é o máximo, curto altas bandas de lá, etc".  Em alguns shows de bandas pernambucanas, como Eddie, Mombojó e Nação Zumbi, os paulistanos eram os mais aficionados.  A festa pernambucana "Sem Loção", em sua versão paulistana, foi citada pela Veja SP como "festa do ano".

Recife, de repente, virou cult.  Na cabeça de muitos paulistanos Recife é o último santuário da cultura independente, um lugar utópico onde músicos, escritores, cineastas e afins podem criar com certa liberdade, ainda pouco contaminados pelo "sistema".  Isso é parcialmente verdade, Recife deve ter uma proporção de artistas por habitante acima da média nacional, e tem uma cena cultural e uma vida noturna "alternativa" interessante.

Acho que parte disso vem do fato de que somos bairristas. Mais de 95% da população de Recife, por exemplo, torce por um dos três times da capital (Náutico, Sport ou Santa Cruz), ao contrário de outras capitais do nordeste onde afloram flamenguistas e vascaínos que nunca sequer pisaram no Maracanã ou São Januário.

Neste cenário é natural que alguns paulistanos, principalmente aqueles meio intelectuais, meio de esquerda, se interessem em vir para Recife / Olinda no carnaval, época do ano em que aflora no pernambucano a "embriaguês do frevo", uma enfermidade que entra na cabeça, depois vai descendo e acaba no pé.

A grande realidade no entanto, é que o paulistano meio intelectual, meio de esquerda, aquele que frequenta a Augusta, vê filmes no Reserva Cultural e não perde um show no SESC Pompéia, ainda não é "roots" o suficiente para encarar Olinda numa boa (vou focar em Olinda, pois o carnaval noturno do Recife Antigo é bem mais civilizado) sem antes se preparar psicologicamente para a experiência que vai enfrentar.  Me sinto, portanto, na obrigação de ajudá-los.

Preparação (faltam 20 dias):

(Passo 1) - Decore 5 músicas (são os únicos frevos "cantados" que você vai ouvir durante o carnaval), e são os mesmos desde que eu me lembre.

- Evocação número 1 (Filinto, Pedro Salgado)
- Madeiras do Rosarinho (ou Madeira que cupim não Rói)
- Hino do Elefante (ou "Olinda quero Cantar")
- Hino da Pitombeira (bate bate com doce eu também quero)
- Voltei Recife

Com essas 5 você se vira, além dessas você também vai ouvir mais 3 frevos, basicamente instrumentais (que até têm letra mas que a maioria dos pernambucanos não sabe cantar):

- Vassourinhas
- Hino do Ceroulas (popopopó)
- 86 só vai dar Arraes (não faço idéia do nome oficial deste frevo).

Este repertório de 8 canções servirão de trilha para 90% do seu tempo de folia, a mais nova das 8 (Voltei Recife), é de meados da década de 70.

(Passo 2) - Comece a beber cerveja quente.  Vá aumentando a temperatura aos poucos, até conseguir beber Skol a temperatura natural.  Isso é importante porque é muito provável que "Skol Latão" seja a única opção de cerveja nas ladeiras de Olinda, e exceto pelos primeiros 3 goles, cerveja quente é o que você vai beber.

(Passo 3) - Pratique o desapego à carteira e ao celular.  Eles não devem ser levados ao carnaval (iPhone então, nem pensar).  O carnaval de Olinda não é violento, nesses anos todos vi pouquíssimas brigas, e a ocorrência de assaltos a mão armada ou coisas do gênero é rara.  Mas no empurra empurra das ladeiras, mãos desconhecidas podem entrar em seus bolsos.  Leve só o dinheiro que vai gastar, vá sem lenço e sem documento (no máximo uma cópia da identidade).

(Passo 4) - Treine panturrilha e pegue o metrô da Sé na hora do rush algumas vezes. Faça isso, de preferência, já bebendo uma cerveja meio quente (depois não digam que eu não avisei...)

(Passo 5) - Peça dicas de pessoas locais para não entrar em programações furadas.  Recomendo o "Eu Acho é Pouco", que sai em Olinda no sábado e na terça às 17h, (vá de vermelho e amarelo).

(Passo 6) - Se exponha a situações de calor escaldante.  Utilizar a sauna úmida da sua academia é uma boa opção pra ir treinando.

(Passo 7) - Escolha um tênis para usar no carnaval, sabendo que o mesmo será descartado na quarta feira de cinzas (de preferência em um coletor apropriado para "lixo tóxico")

(Passo 8) - Crie anticorpos!!  20 dias bebendo água da SABESP e comendo churrasquinho grego em porta de estádio é recomendável, se é pra ter "piriri", que seja antes do carnaval...

Durante o Carnaval:

No caso de Olinda é recomendável já chegar bêbado, faça um esquenta em casa ou no hotel,  caso contrário você pode se sentir intimidado com sensações desagradáveis como cheiro de xixi, gente suada encostando em você, empurra empurra, etc.  O quanto antes você conseguir ignorar estes pormenores melhor...  O ideal é já entrar no primeiro bloco e ficar sujo e suado você também, a sensação de que acabou de sair do banho pode criar uma barreira psicológica...

Use chapéu até as 4 da tarde, o "sol na moleira" não é brincadeira.  

Mantenha uma certa distância dos bonecos gigantes pra não levar um "pedala" de um deles.

Se fantasie de algo muito ridículo. Não se preocupe, haverão centenas ou até milhares de foliões mais ridículos do que você.  

Nunca, jamais, pergunte a alguém onde compra o abadá pro bloco X ou "qual é a música da moda", você não está em Salvador.

Se um moleque estiver anunciando o slogan "olha o sucesso, olha o sucesso", ele não está vendendo cigarros Hollywood.  Sucesso é a gíria local para Loló (a versão pobre, e bem piorada, do lança perfume, que desapareceu do carnaval já há alguns anos).

Prove, mas tome cuidado para não exagerar nas bebidas com nomes exóticos que são marca registrada de Olinda: O "Pau do Índio" é a "marca" mais famosa, mas existem outras com nomes igualmente sugestivos.  Todas são de formulação não revelada.

Vale à pena?

Bom, apesar do texto falar mais de dificuldades do que de benefícios, vou a Olinda todos os anos (não mais em todos os 4 dias, como em outrora, pois não aguento o tranco).

Portanto, se me perguntas se o carnaval de Olinda é bom, eu diria que é sensacional.  Pois mesmo com o empurra empurra, o cheiro de mijo, a cerveja quente e os demais inconvenientes supracitados continuo voltando.  Ser bom com cerveja gelada, ar condicionado e banheiro limpo e confortável é fácil...

Apesar do  "Eu Acho é Pouco" sair apenas às 17h, e por isso ter um percurso relativamente tranquilo (o carnaval de Olinda é essencialmente diurno), na saída o aperto é grande.  Quase como num ritual de passagem, desço o Varadouro como uma sardinha enlatada (meus contemporâneos já não fazem mais isso e esperam o bloco lá embaixo), dividindo com mais 10 pessoas um mísero metro quadrado.  Nessa, hora alguém sempre solta o comentário:  ninguém falou que ia ser fácil!  E você achava que a torcida do Corinthians é que tinha um bando de louco.

Deve ser a tal da "embriaguês do frevo"...



Gostou? Você acabou de ler o post de maior audiência do boraver.com, seguem abaixo os links para os posts que vêm logo atrás, do segundo ao quinto colocado, que tal dar uma olhada?

"Carnaval na Bahia, 8ª maravilha (7 posições atrás de Olinda)" "Filosofia da sessão da tarde - Karate Kid"
"João Gilberto e o RH"
"Liga pra Gente"
 "É Carnaval!! As Aventuras de Cabral no Espaço Sideral"