Thursday, February 28, 2013

GPS modo "AXÉ"

by Pedro Tolentino

óia a espraiada oiá
Bom, após textos como "Carnaval da Bahia, 8ª Maravilha"e "Deficiente Musical", os fãs de axé provavelmente pararam de ler o blog.  Pode ser, entretanto, que alguns não resistam e acabem lendo, ficando invariavelmente irritados ao final do texto (caso da relação do meu pai com a "Veja").

Bom, sacanear com axé music é irresistível (nesse post o termo "axé" engloba também pagode, arrocha, tecnobrega e outros ritmos, pois todos esses serão úteis no novo aplicativo a ser apresentado abaixo, o GPS "modo axé").


Por que a idéia faz sentido?

O "modo axé" nos aparelhos de GPS contará com uma tecnologia já existente (hoje é possível você escolher a "voz" do locutor do GPS: homem ou mulher, sotaque de um jeito ou de outro, etc.).

Além disso o axé (em sua definição ampla explicada acima), é rico em músicas com "manual de instrução", coisas como "vai subindo", "vai descendo", ou "bem devagarinho" caem como uma luva para um locutor de GPS


Monday, February 25, 2013

No Escurinho do Cinema - avaliação dos resultados do Oscar por dois caras que não viram os filmes

by Pedro Tolentino e Sir Anthony



nosso cestinha brincando de estátua
Todo ano, nessa época, os principais veículos de imprensa do mundo dedicam ampla cobertura à premiação do Oscar. A indústria cinematográfica, claro, fica satisfeita com isso, mas a mídia também não têm do que reclamar, porque:

1) o Oscar é uma matéria fácil (usa o mesmo script do ano anterior), leve, cheia de glamour e imagens de gente bonita e (em geral) elegante. Tem jeito de noticia de verdade, mas sem qualquer implicação na vida real, exceto como propaganda dos filmes que serão vendidos em seguida no pay-per-view;

2) ao contrários dos tsunamis, que são eventos mais ou menos imprevisíveis e que só ocorrem quando querem, o Oscar é uma pauta programada, com data fixa e conhecida com antecedência;

3) rende bastante assunto: além de quem ganhou e quem perdeu, há sempre muito o que dizer sobre o que rolou na premiação em si, como "piada mais racista do apresentador" (sempre melhor quando dublada em português, à la comercial das facas Guinsu), ou "atriz que pagou peitinho usando vestido de grife".

A equipe do boraver.com não podia deixar de comentar um assunto tão importante mas, para evitar a mesmice dos outros veículos. decidimos fazer isso sem assistir nenhum dos filmes concorrentes (porque assistindo é fácil, até o Rubens Ewald Filho faz). Isso mesmo, a gente entende tanto de cinema que analisa até de olhos fechados.


Friday, February 22, 2013

O "Burro Motivado" 2ª parte - Desmotivando os Funcionários Incompetentes para Evitar Cagadas

By  Pedro Tolentino

pra esse aí o sonho acabou...
ainda bem!
No primeiro texto sobre o burro motivado, publicado ontem (clique AQUI para ler), explorei os motivos que fizeram com que este tipo de profissional se tornasse um fator de risco relevante para as suas próprias empresas.

À exceção do inteligente motivado (IMO), o funcionário ideal, porém raro e difícil de reter, os outros três tipos  citados no texto anterior têm seus defeitos. Com o mercado de trabalho aquecido, porém, os gestores vão ter que se virar com o que têm.

O "Burro Motivado" (BUMO) é o pior dos quatro tipos uma vez que:

- O inteligente desmotivado (IDE) não produz quase nada, mas de vez em quando faz alguma coisa de valor (nem que seja dar uma boa idéia).

- O burro desmotivado (BUDE) é um "cone do Detran", não faz nada, nem para o bem nem para o mal.

- Já o burro motivado (BUMO) é muito pior que o BUDE. O BUMO  quer botar a mão na massa, quer trabalhar, ajudar.  Ele se esforça, mas a sua completa incapacidade de realizar o trabalho a que se propõe, aliada à sua inabalável crença de que é capaz, tornam o BUMO o candidato ideal para fazer uma enorme cagada.

Thursday, February 21, 2013

O "Burro Motivado" 1ª parte - Incompetente, Imprevisível e Perigoso. Como se Proteger?

by Pedro Tolentino


De uns anos pra cá as grandes empresas estão começando a identificar (e agindo para mitigar) um novo fator de risco que pode dificultar e muito a execução das suas estratégias.  Trata-se do "Burro Motivado", aquele funcionário que não tem muita competência, mas é o rei da iniciativa.


Esse cara pode quebrar sua empresa!
Durante muito tempo os "Burros Motivados" passaram despercebidos.  A hierarquia era mais rígida, o mercado brasileiro era fechado (o que premiava as empresas com margens altíssimas, que aguentavam qualquer desaforo) e, principalmente, não existia a Você S/A e nem livros como "Você é do Tamanho dos seus Sonhos".  Justo agora que as margens estão apertadas, os incompetentes estão mais motivados, cheios de confiança graças à leitura de publicações como as citadas acima e, ainda por cima, têm mais liberdade para "inovar".  A confluência destes 3 fatores é a receita de um desastre.

O BUMO (burro motivado) é o primeiro a chegar e o último a sair, é voluntário pra qualquer coisa (até brigada de incêndio). Sempre elogia as palestras motivacionais promovidas pela empresa, mesmo aquelas onde os "colaboradores" são obrigados a pagar mico fazendo massagem nas costas do cara que está sentado ao seu lado, arriscar uma queimadura de terceiro grau correndo sobre fogo ou fazer outras atividades esdrúxulas que andam inventando por aí.

Tuesday, February 19, 2013

"Cavalheiros" do Zodíaco - Os librianos contra-atacam"


by Pedro Tolentino

Orgulho de ser libriano!!!
Bom, a primeira coisa que tenho a dizer é que não entendo absolutamente nada de astrologia, horóscopo, mapa astral, bola de cristal, borra de café ou qualquer coisa do gênero.

Nasci em 28 de setembro. Sou, portanto, libriano.  Ser “de Libra” era apenas mais um dado quantitativo, relacionado com a data de nascimento.  Eu achava até legal ser de Libra, pois era a moeda britânica, moeda forte, tinha até a Rainha estampada nas cédulas.  Logo na infância, antes do real, uma Libra devia custar uns CX$ 1.298.083.093,32 (esse “X” no CX$ tá aí porque em meados da década de oitenta cada ano tinha uma moeda diferente).  Enfim, eu era de Libra, a moeda forte, e estava feliz com isso.


Na real eu tinha preconceito contra poucos signos.  O pior, sem dúvida, era “Câncer”, imagina que deprê, a pessoa mal nasce e já falam:  fulaninho é “de Câncer”.

-       - Cara, me fala uma coisa, qual teu signo?
-       - Câncer
-       - Putz, meus pêsames brother, é muito grave?
-       - É, sou Câncer com ascendente em Câncer…
-       - Puta cara, vou rezar bastante por você, força aí
-       - Valeu velhinho

Clínica para Recuperação de Babacas

Este post é uma continuação do post "Babaquice tem Cura?", para ler o texto inicial clique AQUI



by Sir Anthony - da reportagem  local


Nem o Vettel resiste a um "chifrinho" básico
Num ambiente sóbrio, embora desprovido de encantos, fomos recepcionados pelo próprio Dr. Sobrinho Jr.,  uma tipo relativamente normal, com gel nos cabelos, sapatos pretos, meias brancas e cinto marrom a dividir, na altura do peito, a calca baggy da camisa xadrez que trajava. Não era um astro do rock, mas podia ser o tio de qualquer um. Falava de maneira bastante pausada, e mostrou-se visivelmente satisfeito consigo mesmo por não ter comentado que uma das nossas assistentes de reportagem estava com o fio da meia-calça  puxado. 

Apesar da simpatia, não pude poupa-lo e tive que perguntar, logo de saída: "Você pode mesmo curar a babaquice?". Ele: "Claro que não! Babaquice não tem cura! São meus detratores que distorcem o que eu estou fazendo aqui. O que nos desenvolvemos foi um tratamento, com base na terapia de grupo, pra fazer com que o babaca se controle e deixe de causar danos a si mesmo e às pessoas ao seu redor. Eu mesmo, posso dizer, sou um babaca em remissão". O Dr. nos explicou todos os tipos de babaca, falou sobre os babacas históricos e sua influencia nos rumos da política, da economia, da música etc.. Uma palestra interessantíssima, mas que ultrapassa completamente os objetivos desse post.



Monday, February 18, 2013

Babaquice tem cura?

By Sir Anthony – da reportagem local


Exemplar típico da espécie
Talvez você já tenha tido a sorte de conhecer um sujeito verdadeiramente babaca. Ou talvez, como eu, tenha tido o azar de conhecer muitíssimos. Só pra esclarecer: não falo daquela pessoa (você, talvez; eu, com certeza) que cede vez ou outra, socialmente, a uma babaquice, quando está com os amigos; que às vezes deixa escapar um trocadilho imbecil e ri da própria imbecilidade do trocadilho; que no meio de uma arquibancada lotada se presta a um papel ridículo, ou que, raramente (mas só muito raramente mesmo, tipo uma vez a cada 2 anos, porque aí já se trata de um caso-limite) faz sinal de aspas com os dedos quando quer dizer que esta sendo irônico no que está falando. 

Não é que eu queira defender esse comportamento, não, pelo contrário. A babaquice é quase sempre condenável e deve ser evitada, do mesmo modo como, sempre que possível, você deve tentar não enfiar o dedo no nariz em publico, salvo nas situações mais excepcionais.  Quero dizer apenas que a babaquice ocasional, para fins recreativos, praticada consensualmente entre adultos, é um mal menor, quando comparada aos estragos causados pelo babaca verdadeiro, o cara que é babaca crônico, patológico, “de ofício”, como se diz  agora no futebol.    


A babaquice sempre foi um grande tabu e eu só posso enaltecer a coragem do boraver por me permitir abrir um dialogo franco sobre esse assunto, mesmo correndo o risco de melindrar muita gente graúda (porque eu estou pra ver um bicho mais melindroso que o babaca). Em algum momento, porém, alguém tinha que botar o dedo na ferida, e falar sobre essa tragédia que vem se alastrando, destruindo famílias e causando enormes prejuízos a sociedade. Agora mesmo, na sua casa, na baia ao lado da sua no escritório, pode ter um babaca, louco pra lhe contar uma piada que já não tinha graça nem quando o Costinha a falou pela primeira vez, durante a queda de Constantinopla. 


Sunday, February 17, 2013

O Mestre de Cerimônias e as Adolescentes Enlouquecidas

Mais um autor estreante aqui no boraver.com, o amigo João Thiago.  Para publicar seu texto no boraver mande e-mail para boraverblog@gmail.com


by João Thiago Santos


Olha ali! É ele! O mestre de cerimônias!
Para um cidadão comum, assumir o papel de Mestre de Cerimônias não é tarefa fácil para os mais tímidos, mas tampouco para os mais desinibidos. Saibam que o frio na barriga é sintoma comum a qualquer um neste contexto. Se o contexto é uma cerimônia pública com muitas pessoas, aí então a friaca na região abdominal é daquelas que acelera o processo digestivo. O fim da história é correr pro W.C., por razões estritamente emocionais.

Acredito que isto tudo deve-se às reações do público que acompanha o evento. Em família, o mestre de cerimônias é personagem de si mesmo, e leva para o local onde discursará todos os apelidos, traquejos, cacoetes, defeitos, taras e manias. Esta é uma daquelas ocasiões da vida em que você pára, reflete e diz para si mesmo: “Fodeu”.


Saturday, February 16, 2013

"O Envelhecente" - dicas úteis para trintões recém separados

É com grande satisfação que o boraver.com publica seu primeiro texto escrito por uma mulher (isso aqui tava uma "macharia" desgraçada), o texto a seguir é da amiga Cecília Urioste.  Para publicar seu texto no boraver mande e-mail para boraverblog@gmail.com

By Cecília Urioste


O "envelhecente" e seu olhar 43
Ele sempre foi "O" gatinho na escola. Aos 17 anos começou a namorar "A" gatinha.  Era o casal perfeito no 3º ano colegial, quarto anos depois, após haver passado em um concurso publico noivado, aos 25 o casamento com todas as pompas e, aos 34, o divórcio.

Embora com muitas variações, esse tipo de divorciado está se tornando um fenômeno. Ele passou todos seus "20 e poucos" preso e agora, com a sensação de perdeu boa parte da festa, resolve recuperar o tempo perdido. 

Aí é que nasce o problema. Esse indivíduo está fora do ciclo de paqueras a mais de 10 anos. Ele tem referências adolescentes e pior, dos anos 90! Eis que estamos em 2013 e esse pobre coitado acaba pagando micos desnecessários, típicos de “envelhecentes”.

Para não passar por isso só há dois caminhos:

 1- Reinventar-se como “garotão” do novo milênio e atacar as "ninfetas" (com o risco frequente de ser chamado de tio ou de ter a carteira depenada).  Essa estratégia também exige bom preparo físico e bastante estudo sobre o zeitgeist da turma de vinte e poucos anos.

2- Entender que as solteiras de 30+ cresceram. Elas estiveram na "pista" esse tempo todo e já não caem em qualquer papinho, como na época do colégio. 

Thursday, February 14, 2013

Smart Brother Brasil - Segundo Paredão


by Pedro Tolentino

Para ver os capítulos anteriores do Smart Brother Brasil, clique AQUI


O clima da casa esquentou nos últimos dias, e as intrigas começaram a aparecer.  Alguns participantes porém, como Zeca Pagodinho e, principalmente Ariano Suassuna, se tornaram unanimidades, queridos por todos.

Na melhor das boas intenções, Ariano propôs uma brincadeira.  Sempre ávido por difundir a cultura nordestina, Ariano desafiou os demais participantes para uma sessão de "poesia de mote e glosa".  A idéia é que alguém joga um "mote" (com dois versos), e o "cantador" tem que se virar pra fazer um poema de 10 versos, em uma sequência de rimas pré estabelecidas (a "glosa"), sendo os últimos dois versos o próprio "mote".

Sempre um gentleman (ele que não me escute pois Ariano abomina "anglicismos"), o autor de "O Auto da Compadecida" se propôs a ser o cantador na primeira rodada.

Olivetto, que tem aparecido pouco no programa, aproveitou a oportunidade para cutucar Selton Melo, outro que anda meio escondido no SBB, e soltou o mote:

- Selton Melo é talentoso
- Mas aqui não aparece

Ariano, que tem um carinho especial por Selton, que representou "Chicó" nas adaptações do "Auto" tanto no cinema quanto na TV, foi simpático na glosa, e Selton foi poupado de maiores críticas:

- Simpatia ali não falta
- Muito dele todos gostam
- Contra ele não apostam
- Na casa tem moral alta

- Dificilmente se exalta
- Cortesia ele merece
- Mas de um mal ele padece
- É um fato curioso
- Selton Melo é talentoso
- Mas aqui não aparece

O próximo "Cantador" seria João Gilberto.  Sabendo que a relação entre o "pai da bossa nova" e o ex presidente FHC estava um tanto ou quanto estremecida, Chico resolve jogar lenha na fogueira:

- É-fe A-gá tá chateado
- Levou fora da Gisele

João não se fez de rogado:

É-fe A-gá ex presidente
- Mestre em sociologia
- Mas um dia quem diria
- A modelo botou quente

- Se mostrou inteligente
- Não é só capa da Elle
- Pode ser só osso e pele
- Mas entende do riscado
- É-fe A-gá tá chateado
- Levou fora da Gisele

FHC fuzilou João Gilberto com os olhos, mas nada podia fazer.  

O próximo cantador era Zeca Pagodinho. Sabendo que Zeca é do tipo que perde o amigo mas não perde a piada, D2 aproveitou pra zoar o colega da esquadrilha da fumaça: 

- O Gabeira só levanta
- Pra fumar um baseado

Zeca deu risada e mandou ver:

- Chegou a ser guerrilheiro
- Pra derrubar ditador
- Sequestrou embaixador
- O que é isso companheiro?

- Poucos sabem que é mineiro
- Pelo Rio foi deputado
- Aqui tá desmotivado
- Agarrado em sua manta
- O Gabeira só levanta
- Pra fumar um baseado

Nem o próprio Gabeira resistiu e caiu na gargalhada, junto com os demais.

No dia seguinte, porém,  era hora de formar o segundo paredão, e os "brothers" votaram conforme abaixo:

Nada menos do que 10 votos vão para FHC, as exceções são:

FHC, que vota em Gisele
Dilma, que vota em Gisele
Gisele, que vota em Dilma (mulher é foda mesmo)...


quem deve sair do SBB 2013 ???
Com isso FHC encara Gisele no próximo Paredão!

Para votar em quem deve SAIR do programa vá até a enquete na fan page www.facebook.com/boravercom, valem os votos até as 21h de domingo, horário de Brasília.

A sorte está lançada...





Livraria de Aeroporto - Próximos Lançamentos

by Pedro Tolentino & Sir Anthony

Inspirado nos textos "Livraria de Aeroporto" do amigo Anthony, postados neste blog há pouco tempo, resolvi imaginar os livros que ainda não foram lançados, mas que poderiam, com facilidade, inundar as prateleiras das livrarias espalhadas pelos aeroportos do país nos próximos meses.

Não deixem de ler os textos:

Bom, dada a tremenda "diversidade literária" das LDA, segue sugestão de novos títulos:







Em breve mais títulos...

Wednesday, February 13, 2013

Beleza Americana por Nelson Rodrigues (parte 03 - final)

by Pedro Tolentino

Este post é a terceira parte do texto "Beleza Americana por Nelson Rodrigues", para ler os capítulos anteriores, clique nos links abaixo:

Beleza Americana por Nelson Rodrigues - Parte 01
Beleza Americana por Nelson Rodrigues - Parte 02

O Coronel Machado há algum tempo que andava incomodado com o crescente contato do filho Anacleto com o vizinho Aristides, o qual considerava um sujeito de princípios duvidosos.  O boato do caso entre Aída, mulher de Aristides, e Oliveira, um simpático corretor de imóveis da redondeza, corria solto, e o marido Aristides, supostamente traído, parecia alheio ao fato, como se não lhe dissesse respeito.  Aristides, há algum tempo, assumira uma postura estranha, começou a vestir-se com ternos bem cortados, ouvir música de negros no último volume, trocou seu Volks por uma Lambreta e virou frequentador assíduo da noite carioca, tornando-se amigo dos piores tipos.  

Além disso haviam dois tipos que viviam do outro lado da Rua, o Nilsinho e o Souza, estudantes de direito que dividiam uma casa, com despesas bancadas pelos respectivos pais, abastados industriais de Vitória. Devido aos modos afeminados dos dois, cresciam os boatos de que eles eram mais que amigos.  O bom relacionamento entre os dois e Aristides colocou uma pulga atrás da orelha do Coronel Machado.  Seria Arisrides um pederasta, que mantinha um casamento de fachada só para poder continuar levando uma vida de pouca vergonha deitando-se com outros homens?  Se este fosse o caso era preciso afastar Anacleto de Aristides imediatamente, e o Coronel chamou o filho para uma conversa.

- Anacleto, o que achas dos vizinhos da frente, o Nilsinho e o Souza?
- Não sei meu pai, não tenho muito contato com eles.
- São pederastas, aqueles dois, sabes disso, não sabes?
- Mesmo? não sabia.
- Pois agora sabes.
- Sim, mas procuro não me meter na vida alheia.
- Como assim Anacleto, essa raça é a escória da humanidade, esfregam na nossa cara essa pouca vergonha!!
- Sim meu pai, eu concordo, tenho nojo destes tipos!
- Eu também filho, eu também.

Aristides, um homem mudado, havia achado em Dorinha uma nova razão para viver.  Cuidava-se mais, tornou-se vaidoso, preocupava-se com o vestir, aparava o bigode de forma impecável.  Nas noitadas, acompanhado de Anacleto, buscava aprender as gírias e costumes da nova geração.  Um belo dia sua filha Socorro pediu permissão ao pai para que a amiga Dorinha passasse a noite em casa.  Aristides, incapaz de esconder um sorriso no canto da boca, assentiu.  Aída não estaria em casa à noite, alegou um chá de senhoras na casa de uma prima, provavelmente uma desculpa esfarrapada para encontrar o corretor. A essa altura Aristides queria mais é que Aída nem voltasse mais pra casa, deixando ele e Dorinha mais à vontade. É hoje, pensou ele!!!

No final da tarde Anacleto aparece e passa algumas horas com Aristides, gargalhando entre porres de "Rodouro" ao som de Dizzie Gillespie no último volume.  Anacleto se despede e segue caminhando até a praça, onde se encontra com Socorro, com quem há algum tempo vive sorrateiramente um tórrido romance.  Após a saída de Anacleto, Aristides mergulha em pensamentos libidinosos sobre Dorinha, se despe e analisa o próprio corpo no espelho.  Por ter sido um remador quando jovem, Aristides tem ombros largos e bom porte físico, não fará feio com Dorinha, pensa ele.

O Coronel Machado, preocupado por achar que seu filho ainda está fazendo "sei lá o que" com Aristides até aquela hora.  Com um binóculo o coronel resolve dar uma espiadinha na casa do vizinho.  Ao ver Aristides, completamente nu em frente ao espelho, o Coronel não tem mais dúvidas do que está acontecendo.  

- Vou matar esse cachorro do Aristides! Acabar com a raça dele!

Arma em punho o Coronel segue transtornado até a casa do vizinho, chove forte.  Ao ouvir a campainha Aristides veste-se rapidamente e desce para atender a porta.  Ao abrir depara-se com um coronel ensopado, o coronel olha para Aristides e, num reflexo subconsciente, tasca-lhe um beijo de língua.  Aristides afasta-se.

- Desculpe Coronel Machado, mas deve ter havido algum mal entendido.

O coronel, transtornado e envergonhado com a situação, volta pra casa sob a chuva forte, sem pronunciar mais uma palavra sequer.  Aristides fica ali sem entender nada.  Volta para o quarto e pensa:  "papagaio, logo o Coronel!".  Ao abrir a porta do quarto Aristides quase tem um ataque cardíaco.  Logo ela, Dorinha, se encontra deitada em sua cama, vestida apenas com uma camisola de seda

- Vem cá Aristides, estamos a sós, você me quer, não quer?

"Aristides, tiraste a sorte grande" (pensou ele)

Este foi o último pensamento de Aristides, antes que um tiro, disparado por trás, desse um fim prematuro à sua vida.  Aristides morreu feliz.

Anunciado o novo Papa


Este texto foi originalmente 2007, mas resolvemos reeditá-lo, atualizá-lo e re-publicá-lo, dado que o tema está bem atual.

P.S. - Esta é uma obra de ficção em "formato" de notícia, nada do que está escrito aqui condiz com a realidade, é tudo inventado.  Este texto não tem como objetivo criticar, desmoralizar, ou atacar a igreja Católica, ou o Papa Bento XVI, é apenas um exercício de imaginação.  O Boraver respeita todas as crenças e religiões, mas nunca perde a piada...


Phillip Kent, o novo Papa
VATICANO (Reuters) – Quatro dias após a renúncia do Papa Bento XVI, o verdadeiro motivo que o levou a tomar tal atitude foi revelado hoje. A Igreja Católica Apostólica Romana acaba de ser adquirida pelo grupo Time Warner por US$ 45 bilhões, naquela que pode ser uma das mais importantes operações de M&A dos últimos anos, e talvez a mais controversa.

A transação foi mantida em sigilo absoluto durante todo o processo e ninguém pareceu perceber a due dilligence que foi feita no Vaticano em janeiro deste ano quando os auditores da PricewaterhouseCoopers, contratados pela TW para o trabalho, examinaram a fundo as demonstrações financeiras, contratos e outros documentos relevantes da Igreja e deram o sinal verde para a transação.

O CEO do grupo Time Warner, Jeffrey Bewkes, deu uma entrevista coletiva hoje pela manhã e revelou os motivos da compra. Segundo Bewkes o mercado da fé se transformou, recentemente, em um nicho muito lucrativo, com um grande potencial de crescimento nos próximos anos, e a Igreja Católica, como empresa líder neste mercado, representava a melhor oportunidade para os investidores interessados no setor.

O momento mais agitado da entrevista foi quando Bewkes apresentou o novo Papa. Nopróximo dia 28 de fevereiro, o atual CEO da Turner Broadcasting System (subsidiária do grupo TW), Philip Kent, será coroado “Papa Paulo VII”. O anúncio chocou muitos católicos, uma vez que Kent não é um religioso e nunca passou pelo seminário. Na verdade Kent não é nem católico, seu batismo será no dia anterior à coroação.  Bewkes justificou a escolha dizendo que esta é uma nova era para o catolicismo, a igreja precisa se reinventar e para isso precisa de profissionais preparados para implementar as mudanças necessárias.

Kent tem 57 anos e 30 anos de experiência em mídia televisiva, em 2003 assumiu o cargo que ocupa atualmente, CEO do TBS, onde é responsável pelas operações da CNN, TNT, TBS e Cartoon Network. Pela sua contribuição ao segmento de TV por assinatura, Kent foi nomeado em 2007 para o "Broadcasting and Cable Hall of Fame". 

Em seu primeiro pronunciamento após o anúncio, Kent se mostrou confiante no futuro da igreja, “O nosso principal objetivo neste momento é recuperar o market share perdido nos últimos anos para as igrejas evangélicas, para isso mudaremos drasticamente nosso posicionamento de marca. O segredo da igreja moderna é a comunicação, chegar até onde o fiel está, e ninguém tem mais condições de executar esta estratégia que o grupo Time Warner.”

Kent anunciou também uma reformulação total no primeiro escalão da igreja e a mudança da sede da igreja para Nova York.  Em seu discurso salientou a importância do mercado de produtos licenciados, a atração de novos talentos para o quadro paroquial e prometeu rejuvenescer o conceito de "católico", tornando a igreja mais atraente para jovens e adolescentes.

O primeiro sinal de que daqui pra frente as coisas serão realmente diferentes poderá ser percebido durante a coroação, quando Paulo VII será coroado usando uma bata Hugo Boss (que fechou um contrato para de exclusividade para o fornecimento dos trajes do Papa e Cardeais).  

"Tens fé?  Torne-se acionista!!!", aclamou Kent, a Igreja deve abrir capital até o meio do ano, mas o grupo Time Warner pretende manter-se no controle com pelo menos 51% das ações.  Até o momento na Bolsa de Nova York, as ações do grupo TW têm alta de 2.5%, um sinal de que o mercado, até agora, tem fé.


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Bento XVI renuncia e vai curtir em Olinda o último dia de carnaval.

Monday, February 11, 2013

Bento XVI renuncia e vai curtir em Olinda o último dia de carnaval.

eu acho é pouco
é bom demais
(em latim)
VATICANO (Reuters) – O Papa Bento XVI anunciou nesta terça-feira sua renúncia ao cargo de sumo pontífice.  O anúncio pegou de surpresa até mesmo alguns cardeais da velha guarda, com quem Bento (que agora volta a se chamar Joseph Ratzinger) tinha contato mais próximo.

Ratzinger deixa o papado e pretende passar o resto da vida num mosteiro, mas especificamente no mosteiro de São Bento, em Olinda, e o anúncio acabou sendo feito à pressas nesta segunda para dar tempo de Ratzinger curtir o último dia de carnaval na cidade que o abrigará daqui pra frente.  O ex-papa confessou que sempre gostou de carnaval, paixão que ficou adormecida ao longo de sua carreira eclesiástica.


- "Acho carnaval o maior barato, infelizmente como papa não podia curtir muito, mas a partir de agora, morando lá em Olinda, espero aproveitar um pouco. Acho que aos 85 anos eu mereço não é mesmo?", disse Ratzinger, antes de embarcar num vôo direto Roma-Recife pouco depois do pronunciamento.


Ao saber da notícia, os foliôes de Olinda já começaram a prestar homenagens a Ratzinger, em vários desfiles de blocos de frevo o público cantava a plenos pulmôês "papapapapapapapa" (ao invés do tradicional popopopopopopopo).  Um boneco gigante de Bento XVI está sendo feito às pressas.


A programação carnavalesca de Ratzinger se inicia por volta das 19h no Alto da Sé, após celebrar missa na tradicional Igreja da Sé, o ex-papa será saudado pela prefeito de Olinda, Renildo Calheiros, de quem receberá a chave da cidade.  A cerimônia contará com a presença da orquestra do Maestro Spock, que promete saciar a sede de Ratzinger pelo frevo rasgado.


Lá do alto Ratzinger receberá os foliões do Eu Acho é Pouco, abençoando os bravos foliões que sobem, todo ano, a ladeira da misericórdia (o ex-papa estará vestido a caráter, de vermelho e amarelo, vejam foto desta reportagem).  A segunda parada do bloco, que esse ano será lá mesmo na Sé, promete ser uma grande festa, de lá o ex-papa segue junto aos foliões até até a sede do "Eu acho é Pouco" que, fica, não por acaso, na "Rua de São Bento".


O evento no alto da sé não estava previsto e deve estourar o orçamento da prefeitura para o carnaval, mas isso não há deve causar problemas, pois o prefeito Renildo Calheiros já passou ao seu secretário de cultura a orientação:  "Bota na conta do papa".


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Guia para o Paulistano no Carnaval de Olinda

Carnaval da Bahia, 8ª maravilha (7 posições atrás de Olinda)
Placas de orientação aos foliões de Olinda
Anunciado o novo Papa

Thursday, February 07, 2013

Carnaval da Bahia, 8ª Maravilha (7 posições atrás de Olinda)

by  Pedro Tolentino

O filósofo francês Blaise Pascal, em sua obra "Pensées" (Pensamentos), de 1670, cunhou a famosa frase:  "O coração tem suas razões, que a própria razão desconhece".  O que Pascal falou sobre o coração vale para a vida como um todo, que também tem suas "razões desconhecidas".  Citando outro grande filósofo, desta vez o brasileiro Vinícius de Moraes, "A vida tem sempre razão".  Juntando as duas teorias chegamos à lei VIP (Vinícius + Pascal): "A vida tem sempre razão, mesmo que a própria razão desconheça".

Hoje, quinta feira pré-carnaval, encontro-me em uma situação improvável, talvez devido à supracitada lei da vida (Leis da Vida, inclusive, seria um ótimo nome pra uma novela de Manoel Carlos, onde José Mayer faria o papel de um advogado que, obviamente, pegaria todas, inclusive a personagem "Helena").  Enfim, escrevo neste momento de dentro de um avião, que partiu há pouco de Recife com destino a Salvador.

Calma!!! Não é nada disso que vocês estão pensando. Não estou trocando o "Eu Acho é Pouco" e as ladeiras de Olinda pelo abadá do Camaleão.  Por motivos pessoais ao invés de “pular carnaval”, vou “pular o carnaval”. Ficarei uma semana em uma praia a uns 80 km ao norte da capital baiana, bem longe da folia.

O disclaimer acima é importante porque, como todo pernambucano bairrista (cerca de 97% dos pernambucanos são bairristas segundo o último censo do IBGE), defendo com unhas e dentes o nosso "modelo" de carnaval: blocos de rua sem corda e sem trio, embalados apenas por uma orquestra de frevo "no pé", tocando aqueles mesmos 6 ou 7 frevos compostos por Capiba ou Nelson Ferreira em tempos ancestrais.

Não é que eu não goste de axé-music, eu até gosto de algumas músicas, mais especificamente daquelas que foram compostas até 1995.  Que bom seria se os soteropolitanos tivessem feito como nós e congelado seu acervo musical carnavalesco naquele ano, limitando-se a tocar, carnaval após carnaval, os mesmos clássicos do axé (“Baianidade Nagô”, “Ele não Monta na Lambreta”, "Chame Gente", “Canto ao Pescador”, “Faraó Divindade do Egito”, “Abre a Rodinha”, “Haja amor”, etc).  Este conjunto de canções, que já começa a ser apelidado de “Axé Retrô”, faz sucesso ainda hoje em festas mais alternativas no Recife.

Na metade da década de noventa, no entanto, a coisa degringolou (pelo menos sob a ótica bairrista e tradicionalista dos Recifolindenses), se não vejamos:

  • As músicas passaram a vir com manual de instrução (e vai descendo até embaixo, e vai subindo até em cima, agora mexe a bundinha, etc).
  • Os grupos de axé decidiram que iam cantar música de carnaval o ano inteiro (nós, Recifolindenses, passamos pelo menos 350 dias no ano sem ouvir “Vassourinhas”, só por isso aturamos escutar este mesmo frevo 350 vezes por dia durante o carnaval. Temos esta visão ultrapassada de que música de carnaval é pra se ouvir apenas no carnaval).
  • Para justificar música de carnaval o ano inteiro foram sendo criadas as filiais do carnaval de Salvador, as famosas micaretas, até Recife teve a sua, o Recifolia. Sou obrigado a admitir que fui a duas edições, a meu favor só posso argumentar que isso foi antes da fase “Axé com Manual de Instruções”.

A grande verdade é que ambos os lados têm argumentos para defender seu modelo.  Os Recifolindenses se apoiam na tradição. É uma postura louvável defender a cultura e os costumes locais, mas pelo medo de descaracterizar o carnaval talvez sejamos muito conservadores, desencorajando o novo em prol do tradicional.  Nos orgulhamos de termos um carnaval multicultural, mas após 5 minutos de caboclinho já ficamos impacientes procurando um bloco próximo que esteja tocando um dos sete frevos regulamentares (isso sem falar do maracatu rural, o do baque solto, eu até acredito que alguém goste realmente de maracatu rural, mas este grupo com certeza representa menos de 5% das pessoas que dizem que gostam).  Finalmente, enchemos o peito para dizer que nosso carnaval é democrático, aberto a todos, nos juntamos à multidão, somos parte do povão.  Tudo isso é verdade, mas para a maior parte da classe média Recifolindense essa vontade de se juntar ao povão quase não se manifesta nos outros 361 dias do ano.

Apesar de tudo, até por ser Recifense e ter crescido brincando o carnaval no eixo Recife – Olinda (que fique claro, este não é um post imparcial), tendo a ver mais defeitos no modelo soteropolitano.  A corda separando o pobre do rico num espaço que, em teoria, deveria ser público é triste de ver.  Na minha visão tende a causar revolta naqueles que estão de fora, espremidos na pipoca.  A população local já começa a discutir o custo/benefício deste modelo (não só a questão financeira, mas se vale à pena promover um carnaval onde os soteropolitanos são minoria, caso do circuito Barra-Ondina).  Movimentos e protestos contra as “cordas” já começam a ganhar força.

Bom, deixo que os baianos se manifestem, defendendo seu carnaval com seus próprios argumentos (tem música nova todo ano, tem mais gente bonita, é menos perrengue, etc.) Uma coisa é certa, nenhum dos lados vai mudar de opinião sobre quem tem o melhor carnaval do Brasil.  Que cada um curta a festa do seu jeito e onde achar mais agradável, ano que vem farei o mesmo. Como Recifolindense não tenho dúvidas onde passarei o meu carnaval em 2014, assim como não tenho dúvidas de quais serão os sete frevos mais tocados...


Gostou? Você acaba de ler um dos 5 textos mais lidos do boraver.com, segem abaixo links para os outros quatro, não deixe de ler!


"Guia para o paulistano no carnaval de Olinda"
"Filosofia da sessão da tarde - Karate Kid"
"João Gilberto e o RH"
"Liga pra Gente"



Link para reportagem sobre os movimentos “anti-corda”.

Tuesday, February 05, 2013

Beleza Americana por Nelson Rodrigues (parte 02)




by Pedro Tolentino


Este post é a segunda parte do texto "Beleza Americana por Nelson Rodrigues", 
para ler a parte 1 clique AQUI.

ÓCIO


No dia seguinte, Aristides chegou cantarolando na repartição, em nada lembrava aquele homem tímido e cabisbaixo que normalmente passava desapercebido por seus colegas de trabalho, foi direto para a sala do Pereira, o chefe do seu departamento.

Algo como vinte minutos se passaram até que saiu Aristides, estava leve, visivelmente feliz, embora tentasse disfarçar se via um sorriso no canto da boca. Ignorou a sua mesa entulhada de papéis e chamou o Almeidinha para um café:

Chegando no boteco da esquina Aristides resolve trocar o café por uma dose de aguardente, toma o líquido em um só gole, abre um sorriso e diz:

- Almeidinha, tiraste a sorte grande!
- Por quê?
- Até o final da semana serás nomeado chefe de departamento!
- Mas, e o Pereira?
- O Pereira vai pedir demissão, e vai recomendá-lo para o cargo.
- Certeza?
- Batata!
- Como sabe disso?
- Porque foi idéia minha.
- E desde quando o Pereira recebe ordens suas?
- Desde hoje.
- Posso saber por que?
- Digamos que eu sei coisas sobre o Pereira, coisas que ele não quer que outros saibam.
- Papagaio!
- Pois é, o Pereira está na minha mão.
- E porque não assumes tu mesmo o cargo?
- Tenho outros planos, semana que vem me aposento por invalidez.
- Potoca! Não és inválido!
- Detalhes Almeidinha, detalhes. Ah, e você está dispensado do trabalho hoje, sua única obrigação é tomar um trago comigo.  Te falei amigo, a sorte sorriu para ti, aliás, para nós.

PODER

Aída chega em casa no final da manhã e encontra Aristides num torpor de lança-perfume. Deitado sobre o sofá da sala, segura um lenço numa mão e na outra um tubo de "Rodouro".  Da vitrola se ouve o trompete de Chet Baker no último volume.  Aristides não está só, junto a ele, na cadeira de balanço, um rapazola aparentando 18 ou 19 anos não contém as gargalhadas enquanto "toca" com as mãos um trompete imaginário.  Passado o choque inicial, Aída agarra Aristides pelos dois braços, sacudindo-o. Aristides, ainda zonzo, reconhece a mulher e simplesmente sorri, como se nada de anormal estivesse acontecendo em sua casa.

- Eu posso saber o que está acontecendo aqui?
- Olá querida, estava voltando pra casa e esbarrei com o Anacleto, é nosso novo vizinho, acho que ainda não conheces, ele tem essa coleção de discos fantástica, você precisa ouvir, é sensacional, olha isso!!! (agora é a vez de Aristides "tocar" o trompete imaginário).
- Ah, claro, e desde quando você tem o hábito de ouvir esta música de negros e inalar lança perfume com garotos de 18 anos em plena terça feira?  Será que estamos na terça de carnaval e eu me confundi com o calendário?  Por que não está na repartição? Posso saber?
- Eu larguei a repartição, cansei!  Por enquanto a combinação jazz e Rodouro me parece mais interessante, hahahahahahahaha (Anacleto não se controla e também cai na gargalhada).
- Está louco Aristides? Largou o emprego? Não tem responsabilidade? És um pai de família.  Isso não vai ficar assim, vou ligar já pro meu pai e meus irmãos, quero ver se essa loucura resiste a uma boa surra.

Aristides nem espera Aída terminar a frase e acerta-lhe um bofetão no meio da cara.  Logo ele, que em vinte anos de casamento nunca havia levantado a mão para a esposa!  Aída fica sem reação.

- Boa idéia querida, acho que sua família ficará feliz em saber das suas escapadelas com o Oliveira, não é a toa que não tens mais vontade de se entregar ao teu marido, o corretor deve te satisfazer direitinho não é mesmo?
- O que está dizendo? estás louco!
- Eu sei de tudo Aída, tenho provas! Fui fiel por vinte anos e em troca me colocas um belo par de chifres, mas quer saber de uma coisa?  Eu não ligo, não mais.
- Não liga?
- Nem um pouco, se quiser ir às vias de fato com o mendigo da esquina é problema seu, mas a partir de hoje vais levar outros bofetões como este sempre que me desrespeitar, principalmente na frente de meus convidados, está entendido?  Quem manda nesta casa sou eu, agora chispa daqui!!

Aída, transtornada com o que se passara, corre para o quarto e se põe aos prantos. Aristides saboreia por um momento a sensação de poder, algo tão raro até então em sua vida, mas logo volta a pensar em Dorinha...


Para ler a parte 3, clique AQUI